É engraçado quando paramos para refletir sobre o número de vezes que construímos, decoramos e ensaiamos discursos, respostas, textos, pedidos, falas, mas no fim, acabamos não tendo coragem o suficiente para usá-los, dizê-los, gritá-los... Aí, depois de perceber que não tivemos a coragem necessária para exteriorizar o que era preciso, vem a frustração, a vergonha, a raiva. E como consequência dessas situações agoniantes começamos a interiorizar os discursos não ditos e todos aqueles sentimentos cinzentos que acompanharam a covardia. No fim nos tornamos mudos, pois tudo que dizemos não passam de meias verdades, vazios lexicais. Morremos aos poucos quando tal quadro se estabelece. Por isso, diante de tal situação ou literalmente vomitamos tudo que está amontoado caoticamente em nosso íntimo deixando a covardia de lado, ou morremos em vida, tendo de conviver diariamente com um falso ''eu'': apático, derrotado, infeliz. Cabe a cada um decidir se vale a pena deixar o medo de errar se sobrepor à nossa verdade interior.
Nós vamos acreditando que somos feitos de ferro mas de vez enquanto o vento sopra forte só pra lembrar que somos feitos mesmo é de papel. Conforme o vento sobra e nos carrega, planamos sobre nossos medos, incertezas, desatinos, reflexões. Somos carregados vez ou outra de modo bruto demais... De vez enquando acabamos rasgando. O problema é que papel rasgado nunca mais é o mesmo, por mais que se remende. Outrora com o vento vem também a chuva, nos molhando, nos amolecendo, nos ''inutilizando''. Aí vem o sol com todos os seus raios de suposta bonança que nos secam. Mas papel seco não é a mesma coisa, fica enrugado, franzino, franzido. Enfim, no final somos nada mais que uma página outrora em branco, outrora lisa e sem marcas. Aí passa o tempo, aí passa o vento e o que restam são as marcas da sua passagem. Cabe saber se os traços, letras, versos e estrofes serão bons o suficiente para esconder os efeitos dos sopros de tempo.
Não julgue as pessoas à primeira vista, nem
à última. Descubra-as, interprete-as pouco e pouco. Depois reflita sobre o que
foi visto. Coloque na balança se o que a pessoa tem a oferecer fará de você alguém melhor, mais feliz. Se sim apenas aceite-a, entretanto não espere
demais, não crie expectativas desmedidas. Deixe-se surpreender favoravelmente.
Faça gozo de suas qualidades e ignore veementemente seus defeitos, afinal já
chegaste à conclusão que tal pessoa lhe trás mais benefícios do que malefícios.
Se o resultado da equação foi negativo, apenas deixe-a ir, entretanto não
julgue. Não vale a pena formar opinião concreta sobre quem não lhe fará o bem.
Sinestesia da morte
Enxergou seu reflexo no fundo turvo da xícara de café. Aquela visão era quase uma denúncia do estado sombrio e amargurado de sua alma que aos poucos se desfazia em borras. Já não havia forças para lutar contra a taciturna realidade. Debruçou-se sobre a mesa carcomida, derramou lágrimas que já não eram transparentes eram cor de várias estações. Inverno, inferno, inverno. Morreu em vida. Deu continuidade ao seu destino, decompôs-se dia a dia, acostumou-se ao fedor, à palidez, ao café amargo diário. Acostumou-se ao café gélido, ao seu corpo gélido. Colocou a água para ferver, colocou o pó no coador envelhecido, despejou a água gota por gota, lágrima por lágrima, sobre o pó, sobre a terra, sobre seu corpo descomposto. Bebeu o líquido devagar, sentindo a angustia do amargor. Digeriu-se por completo, percebeu que o café estava amargo demais, como sempre... Buscou por açúcar. Dirigiu-se num ritmo frenético e sombrio ao pote onde jazia sua última esperança. Tarde demais, o pote já estava cheio de baratas assim como seu corpo, no fundo da terra, no fundo da xícara de café.
Talvez
Acreditar em sonhos pode ser tarefa árdua, penosa e por vezes cansativa à essência humana. Entretanto sonhar é dar voz a alma, por consequência, aqueles que não acreditam até o último instante que sonhos podem se tornar realidade acabam por calar a alma, suprimir a essência que lhes foi concedida. Ignorar a alma é como morrer em vida, enxergar sem ver, amar sem sentir. Não há dor maior do que viver sem ser, sem condizer às próprias convicções. Honrar a própria individualidade e idealismo sem soberba pode ser chave ao sucesso. Talvez seja esse o segredo, honrar piamente a voz da alma, da essência. Talvez a partir da libertação dos reais sentimentos se encontre a verdadeira razão, razão que reside na aceitação de si mesmo, razão que reside na coragem de ser sem medo, sem opressão. Talvez...
Peço sabedoria para não tentar compreender quem me cerca, mas sim amar e respeitar para que desta forma eu não julgue, não desaponte e não deixe com que a amargura da desilusão para com o próximo faça de mim pessoa avarenta. Amém.
Janelas
Abri a janela e vi um monte... Alto tal como desenhava enquanto pequena com aquarela sete cores. Vi também o maior sol que já vira em toda a minha vida, laranja como as abóboras gigantes que tia Nenê
plantava lá no quintal da roça. Abri a janela e voltei a ser criança. Senti o perfume das flores que há muito via, mas não enxergava. Escutei o cantar breve e eterno dos passarinhos me alegrar como há muito não me alegrava. Senti a brisa terna do verão emaranhar meus cabelos. Debrucei-me na janela como quem se debruça para a liberdade e verdadeiramente senti
o poder da nostalgia fazer de mim personagem das minhas lembranças infantis. Ao retornar percebi um sorriso sincero esparramado sobre meu rosto. Enquanto o sol brilhava mais ardia a chama da realização de tal façanha, de enxergar o céu mais azul. Mas com a rapidez de lebres sorrateiras vi todo aquele estase nostálgico trazer à minha alma uma melancolia corrosiva que rapidamente reduziu a nada o sorriso, o sentimento de liberdade, a glória. Refleti sobre o porquê de tamanha inconstância sentimental e logo encontrei a resposta da mofada charada. Ao facear sentimentos tão antigos balanceei o meu antigo e atual eu. Descobri um alguém cinzento, diferente do que a antiga janela remetia. Doeu perceber que desbotei com os anos, feriu perceber que há muito eu não desabrochava como as lindas flores que avistava. Foi então que subi no para peito das vigas de madeira da minha janela e me encontrei imersa na divisão de dois mundos. Ao olhar pra frente sentia a magnitude da liberdade, a mesma que tinha enquanto criança... Liberdade plena, liberdade que não jazia no maligno da realidade adulta. Decidi então fechar os olhos e pular, pular com força, mergulhar, submergir, me banhar daquela antiga, ou melhor, nova realidade. Decidi voltar às raízes que um dia fizeram de mim alguém inocente, mas real. Voltei finalmente a existir dentro de mim.

